Vazio. É assim que eu tenho me sentido ultimamente, um vazio enorme. É estranho, pois agora eu não tenho mais motivo para chorar, na teoria. Na prática, continuo chorando. Perco horas e horas de sono para as lágrimas, e lágrimas e mais lágrimas para o chão. O pior? Antes eu sabia o porquê delas, hoje, já não sei. Não sei o que falta, não sei nem se falta. Isso só pode ser uma coisa: vem uma tempestade. O céu da minha mente começa a escurecer, os ventos agora estão cortantes e as nuvens começam a tomar forma. E eu sei que essa tempestade dentro da minha cabeça vai ser uma das piores que eu terei o desprazer de ver, e que a crise que isso vai causar vai abalar minhas estruturas já abaladas. E vou cair. Desmoronar. E vou fazer de tudo para passar por isso sozinha.
Ninguém é obrigado a ficar no meio da chuva. Ninguém é obrigado a assistir alguém sofrer. Eu não quero que ninguém faça isso por mim, pois eu já nem sei se tenho forças pra retribuir. Na marra, eu aprendi a aceitar o que vier, e que, por mais que eu me esforce, não consigo mudar o que já está definido. Então vem. Vem com tudo, me arrasa, me destrói. Eu vou me deixar apanhar dessa vez, pois no meu vazio eu não acho uma gota de força pra revidar. Deixa vir, quem sabe o que sobrar consiga se reerguer, ou talvez não.
Eu entendo como isso afeta a mim e a todos à minha volta. Eu entendo que eu perco minha capacidade de raciocinar, que falo e faço coisas que, no fundo, eu nunca queria ter feito. Que ajo de maneira irreconhecível e depois não consigo lidar com as consequências disso, que pareço perdida. É que eu estou. Não me encontro na minha rotina, nos meus estudos, não consigo ficar um segundo sozinha sem me perder em pensamentos, e preciso me esforçar pra não cair nisso em público. Para constar, falhei na maioria das vezes. Meu relacionamento me distrai da minha mente uma parte do tempo, e em outra parte a incentiva. Talvez seja pela cicatriz do passado que ainda arde, mas é tudo o que eu tenho agora. São os momentos que eu consigo me desligar por uns minutos, e me sentir segura. É quando eu posso me permitir ser pelo menos um pouco feliz. E não posso perder isso. Não de novo. Não vou. É por isso que preciso enfrentar isso sozinha. Doa a quem doer. Ou melhor, que doa tudo em mim.
Eu quero tentar ser boa em tudo, e para todos. Quero conseguir carregar o mundo nas costas enquanto ele me esmaga cada vez mais e meus joelhos vão ao chão. Tento conseguir me arrastar pra frente pelos outros, pois se fosse só por mim eu já teria me deixado esmagar. Tudo o que eu conquisto já não me satisfaz, o pingo de motivação que eu sinto é satisfazer aos outros. E eu tento engolir sapos e enterrar pensamentos, e tento me segurar o máximo que dá, mas continuo andando em direção ao abismo. O abismo da insanidade, tão profundo, tão escuro, tão tentador. Não existe um dia sequer que eu não acorde com vontade de deixar meu corpo pender para frente e sentir o ar contra o meu corpo enquanto eu caio. Não existe um dia que, no final dele, eu diga: "este foi um dia completamente bom". Talvez isso não exista mesmo, e cada um lida com seus demônios de forma particular até que o próximo dia chegue.
Eu só queria descansar. Descansar das preocupações, dos sentimentos ruins que crescem cada vez mais, das memórias que machucam e das palavras que cortam. Queria apagar da minha mente tudo o que um dia me fez mal e que não me deixa prosseguir, como uma bola de ferro presa no meu tornozelo. Queria sentir apenas alegria e prazer nas pequenas coisas boas que eu faço, e não apenas tristeza com uma pontada de animação. Queria me sentir parte de algo, não me sentir perdida em um mundo que eu não tenho condições de viver. Queria ter certeza das palavras de amor que eu escuto, queria acreditar que o pouco "bem" que eu sinto realmente pertence a mim. Que eu mereci. Tudo o que eu consigo pensar é que é algo forçado, irreal. Não me surpreenderia se coisas ruins acontecessem mais uma vez, talvez no fundo é isso que eu espero. É para isso que eu me preparo. Me preparo para perder tudo novamente.
Cada dia que passa eu tenho mais certeza que o que me pertence verdadeiramente é a solidão. É mais fácil enfrentar tudo sozinha. Cair sozinha, sofrer sozinha. Eu me vejo deixando todos partirem para que não tenham que enfrentar meus monstros comigo, e me vejo olhando no horizonte enquanto partem, ansiosos por ver o que há de melhor no mundo. Com certeza há mais do que eu ofereço. Eu entendo, no fim das contas, todos que um dia já me deixaram. Perder, às vezes, é algo bom. Não necessariamente para mim, mas para aqueles que eu me preocupo. E eu sei que, mesmo sofrendo, é o melhor que poderia acontecer. No final das contas, nada disso vai importar. Porque é isso que acontece com todo mundo. Um oceano de sofrimento, uma gota de alegria. E, no fim, tudo se dissolve em alto-mar.